sexta-feira, 24 de agosto de 2007

CABINDA

INTRODUÇÃO

Notícias em edições recentes do PÚBLICO (4 de Agosto: “FLEC introduz a palavra ‘Estado’ na sigla”; 11 de Agosto: “ Visita de Eduardo dos Santos pôs a tensão ao rubro no enclave de Cabinda”; 12 de Agosto: “Cabinda quer ter um porto de águas profundas”), como condensam diversas informações distintas, parece oportuno a apresentação de alguns breves comentários. Assim:

ENCLAVE OU ESTADO?

Trata-se de um tema que em certos momentos é estudado internamente na Resistência Cabindesa e faz sentido esta reflexão. Desta vez a posição predominante decidiu pela substituição da palavra de origem francesa “enclave”, que poderá remeter para uma leitura limitada da justa Luta pela Independência de Cabinda, algo semelhante a uma reivindicação de natureza geográfica ainda podendo admitir um qualquer regime jurídico, região autónoma, por exemplo, pela palavra portuguesa “Estado” que, inegavelmente, confere outra dimensão ao trabalho desenvolvido pela Resistência Cabindesa contra a ocupação e colonização do Território mártir.

AFASTAMENTO DE QUADROS DIRIGENTES

Na mesma notícia que anuncia a importante alteração da sigla da genuína organização da resistência popular, inicialmente ao incumprimento português e há mais de três décadas à ocupação e colonização angolanas, FLEC, informa que o histórico dirigente da Resistência Cabindesa, Nzita Henriques Tiago, afastou o seu filho Antoine e saneou outros altos dirigentes como Buílo, Quinta, Gieskes e Virginie. Uma Luta de longa duração como é o caso de Cabinda (mais de 40 anos) necessariamente incorpora este tipo de episódios: alguns combatentes ou activistas não resistem, eles próprios, a esta prova e parece prudente que os lugares por tais quadros ocupados, sejam renovados com outros dirigentes que se sintam firmes e equilibrados com o projecto da FLEC.

Neste longo percurso, sublinhe-se, há mudanças nas pessoas que protagonizam a Luta de Libertação de Cabinda, embora este não seja um fenómeno exclusivo de Cabinda: uns derramam o seu sangue em combate contra o exército carnívoro de josé eduardo dos santos, as faa/fapla, alguns abandonam a Luta por doença ou porque a idade já não permite uma participação activa, outros abandonam as fileiras da Resistência para se integrarem em alguma sociedade que os acolha, outros capitulam e corporizam uma adesão ao inimigo (antónio bento bembe, é o exemplo mais recente) e entre outros motivos elegíveis para um abandono, outros há que discordam das ideias e das práticas das organizações e tentam outra via. Não poderão ser considerados traidores, não deverão, por isso, ser imediatamente colados ao inimigo. Provavelmente é este o caso dos cinco dirigentes nomeados, que conheço pessoalmente. Possuem uma visão particular do modo como lutar pela Independência de Cabinda, que difere da visão da Direcção da FLEC. Ainda em período recente a estes quadros oferecia-se internamente uma designação curiosa: “a cintura do Presidente” pela proximidade, pela função de conselheiros, pelas mais altas missões para as quais eram seleccionados pelo Presidente Nzita, entre muitos outros quadros disponíveis. Para salvaguardar a ortodoxia, para prevenir previsíveis vacilações em momentos difíceis, para não dar uma imagem de organização com um projecto ambíguo ou adaptável, o Presidente Nzita e os mais destacados dirigentes da FLEC decidiram efectivamente pela substituição dos cinco elementos. Por muito que custe aceitar que pessoas que tanto deram de si pela causa da Libertação de Cabinda sejam afastadas dos órgãos de decisão da organização de que foram destacado suporte, deve aceitar-se esta decisão, que seguramente foi igualmente difícil de ratificar para o próprio Presidente Nzita. A decisão parece sábia e antecipa acontecimentos. Não foi afectada a vivência interna de um verdadeiro e cultural espírito democrático porque todos os membros da FLEC agora afastados de funções dirigentes foram convocados para a reunião que produziu tal decisão. Se não compareceram, é uma decisão sua (dos elementos afastados).

A Buílo, Antoine, Quinta, Gieskes e Virginie, não faltará espaço, abertura e compreensão para, se entenderem, regressarem ao convívio dos seus companheiros na FLEC e recomeçarem o trabalho, provavelmente com outras atribuições. Penso que estes quadros compreendem, apesar de eventuais divergências, que no contexto actual da Luta do Povo Cabindês pela sua dignidade como Povo, pela Autodeterminação e Independência do Território, nenhuma solução poderá contornar o Presidente Nzita. Essa, aliás, é a triste estratégia do ditador angolano que insiste em resolver o problema pela força e sem uma negociação transparente com o Presidente Nzita.

A VISITA DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS A CABINDA

Esta visita visa dar algum crédito a bento bembe para que o “memorando de entendimento” não seja condenado ao esquecimento, como todas as anteriores iniciativas unilaterais para a “resolução do problema de Cabinda”. O ditador angolano, no entanto, sabe que não é bem vindo a um Território cuja população condena e martiriza há mais de trinta anos. Sabe que uma qualquer manifestação espontânea poderia colocar em perigo a sua integridade física, pelo que tratou de preparar a sua presença com prévios golpes brutais. Tudo está descrito com preocupante clareza na notícia do PÚBLICO de 11 de Agosto.

Elemento fundamental da demagogia do ditador angolano, quando a Cabinda se refere, é o investimento económico e as grandes realizações do seu governo. O topo das “medidas” mais recentes é a ligação geográfica de Cabinda a angola, “medida” que o governo comunista chinês se apressou a apoiar (cf. PÚBLICO, 12 de Agosto, p. 16). Aquele momento de delírio do ditador angolano e concomitante tensão entre a população amordaçada de Cabinda, terminou com a sua desejada partida do Território ocupado.

Mas josé eduardo dos santos não está só.

HAVIA DE SURPREENDER

Que “empresários” e “empreendedores” portugueses, “competindo” com americanos e chineses, corram a toda a velocidade para “investir” em angola. Não irei aprofundar esta questão porque estas notas destinam-se a diferente objectivo. Mas a economia angolana é uma economia de sangue como oportunamente referi em nota dirigida ao Millennium BCP (07.08.07). É. E não há quem não saiba. Há quem não queira saber. A Resistência Cabindesa observa estes acontecimentos com singular tristeza, se a esta questão quisermos associar um sentimento. Quero com isto justificar a frase anterior “mas josé eduardo dos santos não está só”: ele é ajudado pelos referidos “investidores” e por todos os governos portugueses desde 1975 e actualmente por todos os partidos políticos com representação parlamentar. É dramático mas é a verdade. Por exemplo, recentemente, em nome do Presidente Nzita Henriques Tiago, solicitei uma audiência a três presidentes de grupos parlamentares, para actualizar os partidos políticos sobre a situação em Cabinda, através de documento e não obtive qualquer resposta ( primeiro contacto em 11 de Junho e segundo em 30 de Julho).

22.08.07

Manuel Falcão
Conselheiro do Presidente da FLEC
cabinda@propagare.org

NOTA ENVIADA AO MILLENNIUMBCP EM 07.08.07

O acordo estabelecido com a empresa petrolífera do estado criminoso angolano, sonangol, é um aval a uma economia de sangue em virtude da ocupação e do genocídio praticados por jes / mpla em Cabinda, desde 1975 e intensificados estes crimes após a rendição da UNITA. Ninguém pode ignorar estes factos ou dizer que não sabe o que se passa. Por isso surpreende que o actual Conselho de Administração do Millennium BCP tenha colocado "borda fora" a ética do negócio.

07.08.07

OS PARTIDOS POLITICOS PORTUGUESES

Há muito que os partidos políticos portugueses deveriam ter uma posição clara e inequívoca relativamente ao problema de Cabinda (invasão do Território de Cabinda em 1975, ocupação desde aquele ano e domínio carnívoro por parte de josé eduardo dos santos / mpla), que ainda podemos considerar um Protectorado de Portugal. Não é aceitável entender o documento que sustenta o acordo da Coroa portuguesa com os Nobres de Cabinda como um documento fundador de um protectorado colonial. Apenas desconhecimento do Direito Internacional e da História poderá justificar tal posição. Neste contexto, igualmente confrontados com o terror que se vive no Território mártir e com a asfixia do Povo de Cabinda, os partidos políticos portugueses deveriam tomar posição face a angola.

02.12.06

E SE FOSSEM CULTOS?

Está cada vez mais complexa a situação em Cabinda. O horror provocado pela ocupação colonialista angolana tem um carácter programático: o Território de Cabinda é um tesouro, a sua população é um entrave, logo, aniquilando-a a sucção das riquezas será feita de modo livre, engordando a camarilha colonialista de Angola com josé eduardo dos santos à cabeça. Este projecto macabro está a ser levado a cabo no terreno, interpretado pelos algozes de mil maneiras diferentes, desde 1975.

A Resistência popular aos colonialistas e seus aliados continua firme, portanto, actuante. É necessária. Assume uma atitude de defesa. As coisas poderiam ser diferentes caso angola dispusesse de dirigentes cultos. Nesta mesma linha poderá ser analisada a visita do primeiro ministro e ministro da propaganda do governo socialista português, josé sócrates, acompanhado de um avião cheio de "empresários" (alguns dos quais, pela formação que possuem, causam escândalo participar nesta "missão"!). E se fossem cultos? Por exemplo se soubessem um pouco de História?

07.04.06